segunda-feira, 27 de abril de 2009

Got the love?


Qual a diferença entre correr de verdade e brincar de correr?

Será a velocidade dos carros? O investimento? As provas em que participamos?

Tenho me feito muito essa pergunta nos últimos três anos. E durante todo esse tempo algumas definições obscureceram meu julgamento. Inconscientemente eu acabava associando o profissionalismo com o compromisso e o amadorismo com a descontração e associava errôneamente também essa leveza com alegria e diversão.

E pensando assim, muitas coisas não se encaixavam de jeito nenhum. Em três anos nas pistas, vi com frequência os profissionais rindo, se divertindo, socializando, fazendo churrasco e por vezes até bebendo nos boxes. E vi amadores correndo como loucos, com expressões de preocupação, dividindo as poucas ferramentas e fazendo tudo o que podiam dentro dos limites de seus conhecimentos para conseguirem colocar o carro de volta na pista após uma quebra.

Em um esporte de disputa franca, vi profissionais priorizarem o combate ao cronômetro e demonstrarem indiferença aos adversários, conquistando cada vez mais a apatia do público, ao mesmo tempo em que vi os amadores incendiando as arquibancadas ao trazerem suas disputas e rivalidades pessoais para dentro da pista.

Me dei conta de que a diferença entre os tais profissionais e amadores nada tinha a ver com compromisso ou descontração, mas era apenas uma questão do bom e velho dinheiro. De um lado temos aqueles que vem para a pista de trailer, com um carro específico para competição, equipe de mecânicos profissionais, equipamento de ponta e diversas peças sobressalentes.

E do outro temos aqueles que trazem seu carro rodando ou em cima de uma carretinha, que correm com um carro de rua que adaptaram para a pista, um carro com o qual possuem uma ligação afetiva. A equipe são os amigos, que só ajudam por amor à camiseta, o equipamento é o que deu pra comprar e as peças sobressalentes... Bem, quem vai colecionar figurinha duplicada sem ter sequer completado o álbum?

E assistindo a última prova da AD me caiu a ficha. Ao ver o esforço de pessoas como o Tuio e o Pereira fazendo todo o possível para montar o Passat ainda em tempo de dar as 3 puxadas, ao ver os gringos mais uma vez lutando com as dificuldades, ao ver a equipe do Demétrio deitada no chão consertando o Corsa em pleno alinhamento após ter passado a tarde substituindo o cabeçote... E principalmente ao ver a expressão de frustração do Gu de Almeida após não ter conseguido mais uma vez virar um bom tempo com o 147, me lembrei das minhas próprias aventuras e desventuras com o Kadett e todas as alegrias e frustrações que o empenho nesse carro me trouxe.



No final, não importa nem se você vence ou se você perde, no final só importa uma coisa: O amor.

É isso aí, o AMOR pelo esporte, pela competição, pela preparação... O amor pelo carro. Aquele sentimento de acreditar naquilo que se fez, acreditar no próprio trabalho, nas próprias idéias, na própria forma de fazer as coisas.

Uma vez que você se envolve com preparação, se envolve com seu projeto. Você acredita nele e quer provar o potencial que tem. Você e o carro passam a ser um só e isso fica bem claro quando críticas ao carro passam a ser tomadas como ofensas pessoais. Porque no fundo, é isso mesmo que elas são, ainda que só o criticante e o criticado saibam disso.

De repente o que mais importa é provar que o seu carro está a altura da competição e naquele momento, todo o resto do mundo desaparece. No alinhamento, quando desce o pinheirinho chega a hora da verdade e não podemos mais nos esconder atrás de teorias. Não há mais lugar para desculpas. Todo o esforço de semanas, às vezes meses, é posto à prova em um segundo, e o peso está todo em suas costas.

Você dá conta do recado?

Estar lá significa dar a cara à tapa. Significa ter a coragem de colocar o ego à prova. Significa que você saiu do seu mundinho seguro e que até acabar a pista não existem mais garantias. Você vai provar seu ponto de vista, ou será que terá de engolir suas palavras? Porque uns falam menos, outros falam mais... Mas todos tem suas próprias idéias.

Isso é com certeza uma experiência muito intensa e o que faz com que seja assim não é o dinheiro que você coloca no carro, mas sim o amor... O quanto de si mesmo você coloca na mesa.

Mas quando acaba, ganhando ou perdendo, você VIVEU o momento e seja por uma explosão de alegria ou uma grande decepção, ele vai ficar para sempre na memória como um tempo de esforço, dedicação, paixão e principalmente, EMOÇÃO. Esses podem ser os melhores momentos de sua vida.



E pensando nisso tudo, me lembrei de um slogan escrito nas costas de uma camiseta velha, e era mais ou menos assim:

"Fans can make you famous, money can make you rich, but only love can make you a player".

"Fãs podem torná-lo famoso, dinheiro pode torná-lo rico, mas só o amor pode fazer de você um jogador"

A brincadeira dos amadores às vezes é muito mais séria que a seridade do brinquedo dos profissionais.

9 comentários:

  1. "A brincadeira dos amadores às vezes é muito mais séria que a seridade do brinquedo dos profissionais". Perfeito!

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  2. O esporte amador é movido por amor, o que falta nos esportes mais profissionais é justamente isso, fazer as coisas por vontade, por prazer pessoal, fazer porque gosta daquilo...

    Quando você transforma o esporte em ganha pão, ele deixa de ser paixão e passa a ser emprego.

    Ser amador é motivo de orgulho...

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  3. Nossa, belíssimo texto. Muito bom mesmo. Parabéns!

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  4. Diz a sabedoria popular das corridas que a " melhor coisa nesse mundo é ser um amador muito profissional... e a pior, um profissional muito amador!"

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  5. Concordo em gênero, número e grau!
    ;)

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  6. Vicente,como diriam no futebol: - Bateu a falta e o goleiro ainda tá pensando em arrumar a barreira, nem viu a bola entrar. Mais um golaço !! Parabéns.
    ** Grande Marquinhos !! Buscou a bola no fundo do gol e colocou de volta no meio do campo.
    Estive lá e vi que o tal TOP 16 é muito legal, não vejo a hora de participar !!

    Abraços.

    RC

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