sábado, 9 de junho de 2012

Sem medo e sem desculpas: Zero grau em Tarumã.

Ademir "Perna" Moreira, narrando a vitória de Bráulio Rocha.
 "Se você tiver sempre a mesma conduta, obterá sempre os mesmos resultados"

É um célebre e verdadeiro dito popular. Mas falando-se de arrancada, o que seria uma conduta diferente? Seria fazer um tipo de carro diferente? Correr em metragens diferentes?  Numa pista diferente? Uma organização com regulamento diferente?

Na verdade isso tudo não se consolida como algo profundamente diferente. A grande diferença talvez esteja na atitude dos pilotos em relação à competição.


Existe uma bela história a respeito do veterano mito das arrancadas, o piloto Don Garlits. O cara pilotava todo o tipo de carros - contanto que fossem realmente rápidos - e o fazia em qualquer condição de pista. Estamos falando de dragsters que mais pareciam bicicletas de quatro rodas, com motores de até 3000 cv, movidos a nitrometano puro. Dezenas, ou talvez centenas de pilotos perderam a vida ao volante de geringonças desse tipo.

Mas Garlits pilotava bem em qualquer piso e em qualquer lugar. Sendo natural da Flórida, decidiu fazer a viagem de costa a costa com seu dragster, para provar que seus tempos de pista eram verdadeiros, ao contrário de alguns boatos que circulavam no oeste.

Lá recebeu a alcunha de "floridian", por ser um forasteiro. Assim ele mesmo resolveu dar aos seus carros o nome de "ratos do pântano" em alusão jocosamente auto-pejorativa a geografia de seu estado natal.


Mas o que significa isso? O que isso tem de diferente?

Nas entrelinhas dessa história, vemos que o "Big Daddy", como era conhecido, era um piloto hábil, corajoso, técnico e talvez o mais importante: Combativo. Não tinha medo de acelerar, onde ou com quem quer que fosse. Com ele era lado a lado e sem desculpas.

E isso faz um grande contraste com a arrancada "mainstream"que temos hoje no Brasil, onde a reta está mais para passarela de moda do que campo de batalha. Nas competições por aqui vemos os pilotos com seus brinquedos nos boxes, quadriclos, mini-motinhos, carros caros e não me surpreenderia se um dia chegasse numa prova e encontrasse um Jet Ski último modelo estacionado em algum box.

A idéia básica de quem corre é conseguir um tempo baixo, para ser também ostentado, como mais um dos "troféus" que exprimem o status quo dos pilotos. E, apesar de isso não ser exatamente condenável, dá pra se dizer que vai contra o princípio do esporte em si. Não só da arrancada como esporte, mas de qualquer esporte. Essa cultura cria competidores que tem verdadeiro horror de alinhar lado a lado com outros carros numa disputa decisiva, pois todos querem ganhar, mas ninguém quer ter um video de seu carro no Youtube levando pau numa puxada.

Entretanto, algumas personalidades da arrancada estão tendo contato com a cultura da verdadeira drag race em suas viagens para o exterior. Pilotos como Sidnei Frigo, Luciano Nichetti e a equipe da fabricante de injeções eletrônicas FuelTech estão tendo suas experiências em competições fora do Brasil. E lá, sem excessão, as competições são realizadas em eliminatórias de 16, mata-mata. 

Mas não é preciso voltar-se para fora, importando uma cultura, quando já temos isso no quintal de casa. Ontem estive no Racha Tarumã, que há anos já vem sediando a primeira e única competição organizada com finais "heads up" e eliminatórias de 16 carros, o TOP16 da AD. Mas ontem a pista estava aberta para treinos e o prêmio da Noite do Fusca.

Noite fria, zero grau. Mas o pessoal mais combativo estava por lá, como sempre. Nomes como Alex Machado, Valdenir "Véio" de Borba, Daniel "Pipino" Moresco, Luiz "Fireball", Braulio Rocha e Anderson "Boca" estavam na pista acelerando carros realmente rápidos.

Fusca do Pipino, novamente com as wheelie bars.

Boca, andando forte.

Véio Valdenir: Colocando pressão

Alex Machado da Raul Car: Treinando

Luiz "Fireball": Chegou na final.

Braulio Rocha: Venceu todos.
No final, disputando os R$500,00 estavam os fuscas do Braulio e do Luiz. Na hora da última arrancada, todo o pequeno, mas intrépido público se reuniu na cabeceira da pista para ver o pega. E nenhum dos pilotos decepcionou. Ambos aceleraram forte e a vitória ficou para o Bráulio.

Na volta, Luiz desceu do seu fusca, com um sorriso no rosto e apertou a mão do Bráulio, parabenizando-o. Com certeza não estava feliz, mas é sempre bela a atitude de reconhecer a vitória do adversário, quando ele é superior.

Mas mesmo sendo uma hora da manhã, a noite não havia acabado. O "véio" Valdenir chamou o Bráulio para o pega. Valendo? Nada! Só pelo pega mesmo. Bráulio não precisava aceitar, mas... Em segundos lá estava ele, com o fusca alinhado e esquentando os pneus.

Arrancou e levou! Final de noite perfeito para a equipe, certo?

Errado. O piloto do Chevette azul não se contentou com a derrota e pediu mais uma arrancada. No meio da confusão, escuto alguém gritar: "Melhor de dez"... Já pensaram? Melhor de dez!! Aí também seria demais, mas o fato é que o Braulio aceitou voltar mais uma vez pro pega.

Nesses casos, o mais importante não é quem vence, mas sim o fato de que os dois estão lá pelo acelera. Não importa o carro, a potência, o recorde. O que importa é estar lá, representando, lado a lado, sem medo e sem desculpas.

E é por isso que os pilotos criados dentro dessa cultura são tão difíceis de bater em competições como o TOP16. É uma geração de pilotos criada na arena, não na passarela.

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